S. Martinho de Courel

Courel orago São Martinho, era vigararia ad nutum dos Cónegos da Colegiada de Barcelos.No livro dos usos e custumes desta freguesia, a fls.13, encontra-se uma interessante nota all lançada em 2 de Outubro de 1831 pelo vigário de então P.e Manuel José Martins.

Diz assim:- « Teve principio esta igreja de S. Martinho de Courel a ser curada por parocho no ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil cento e oitenta e quatro, segundo o que consta no Archivo da Santa Sé Primaz de Braga da apresentação do ex.mo Sr. Conde de Barcelos e foi abbadia da sua regaliaaté ao anno do Sr.de 1474em que o Ex.mo Sr. Duque D. Fernando, o 1º do nome, obteve do Papa Paulo 2º breve para a sua Capela real de Barcelos ser erecta Collegiada e todas as Igrejas da sua apresentação ficassem a solver os dízimos para as Dignidades, que nella ha, ficando deste tempo por deante em vigaria, e se collige ser abbadia até ao dito anno de 1474, e desta era por deante até ao presente de 1831, é vigararia ha 357 annos; e foi abbadia 290 annos».

---« Não se pode ver no conhecimento em que era foi feita a ermida ou capella de S. Martinho, como coligi do dito archivo da Santa Sé; e mais por se não poder lêr e ser letra antiquissima e gotica etc. etc. É para memoria para os tempos vindouros fiz este assento da minha curiosidade por ser apaixonado de saber as antiguidades dos templos».

Estas notas ainda que sujeitas à crítica histórica, são na verdade interessantes e a curiosidade do ilustre vigário não era de todo despicienda.

Courel, segundo o P.e António Gomes Pereira, deriva do latim quadrelli, genitivo do substantivo quadrellas, variante de quadrella que deu origem à palavra courella, terreno quadrangular, leira grande.

Esta freguesia vem nas Inquirições de D. Afonso ll de 1220com a designação: - « de Sancto Martinode Coirel» nas terras de Faria.

O rei tinha um reguengo marcado por divisas. Havia ainda um souto reguengo.

Pedro Mendes de Moines comprou uma herdade e parece que foi alargando os seus dominios até à custa do que era do rei: « et dicunt quod Rex domnus Sancius posuit illis istam rendam. Et postea miserunt ipsa casalia in pignore Petrus Menendiz de Moines, et non levat inde Maiordomus ipsos medios morabitinos nec audet in illa intrare».

Os Moines eram absorventes e despóticos como se pode ver na freguesia de Goios.

A antiga Igreja Paroquial era um pouco ao nascenteda actual, junto ao Presbitério e era a antiga ermida de São Martinho, cuja fundação se desconhece.

Podemos localizá-la pelas seguintes confrontações:  norte,eirado de residência; poente, caminho; sul, terras de Amins e nascente, quintal de Residência.

Corre na tradição, não que visse em qualquer documento, que a matriz desta freguesia e de outras vizinhas foi primitivamente no Monte do Adro, limites das freguesias de Chorente, Macieira e Gueral, andes da fundação das suas restectivas Igrejas Paroquiais .

Relativamente a esta de Courel não sei quando a antiquíssima ermida de São Martinho começou a funcionar como matriz; em 1765 capitulou-se o lavatório para a sacristia; em 1784 o forro da sacristia com claraboia e forrar o corpo da Igreja; emem 1786forrar a sacristia dos Remédios; em 1797 entaburnou-se a Igreja;  1798 pintou-se o forro da Igreja; em 1802 soalhou-se a sacristia; em 1808 mandou-se rasgar uma fresta junto ao altar dos remédios.

Nela porém se exerceram os actos paroquiais até 1863, ano em que foi inaugurado o actual templo.

É  certo que ainda existiu até 1887, sendo então demolida e a sua pedra empregada na construção do do cemitério Paroquial.

O actual templo foi mandado construir pelo brasileiro Manuel José Ribeiro de Araújo, natural desta freguesia. É edificio relativamente grande,  bem proporcionado e iluminado por rasgadas janelas.

Do antigo apenas tem o baptistério que veio da Igreja velha.

Obra moderna, o que tem de mais notavel os tetos em estuque com aplicações de gesso bem trabalhadoe na capela-mor os quatros quadros com os evangelistas também em gesso. 

Dizem que este trabalho foi executado por um artista de Lisboa, cujo nome desconhecemos.

A obra de carpinteiro foi dirigida pelo mestre da mesma arte  José António de Miranda, natural desta freguesia.

Exteriormente, por cima da porta principal, existe uma lápide com a seguinte inscrição : « Manuel José Ribeiro de Araújo, Comentador de Impereal Ordem da Rosa. Grato ao logar que o viu nascer, veio do Brazil pela 3ª vez ao seu paiz natal edificar este templo em honra do culto divino 1861».

Ergueu-se ao lado do evangelho a facear com o frontispício uma solida torre, com o seu relógio, e seguem-se-lhe as sacristias, amplas de um andar.

Nesta freguesia existiu a Ordem 3ª de S. Francisco instituida pelos frades do Convento da Franqueira e na qual havia um Comissário, que era um frade daquele convento nomeado pelo Provincial da Ordem franciscana.

O Adro é todo cercado de parede com duas portas de ferro para serventia . Dolado sul, a facear com este, está o Cemitério paroquial cujo portão tem data de 1893.

O Cruzeiro paroquial, um pouco distante da igreja ao norte, é moderno, alto, mas bem proporcionado. A sua coluna é rematada por um  bem trabalhado capitel, folheado, coríntio.

Em 1780 capitulou-se a reforma na residência e cozinha;  em 1782 o portal da residência, que era uma cancela velha; em 1802 soalhou-se a Residência, reparou-se a taipa e portas; em 1818 envidraçou-se parte da Residência e em 1906 teve uma grande reforma.

Não há actualmente capela alguma pública nem particular.

Existem os seguintes Nichos ou Alminhas : as do Casal e as de Amins.

Esta freguesia, sita na encosta nascente do Monte de Courel, prolongamento do da Franqueira, na bacia orográfica do Este, confronta pelo sul com a de Macieira de Rates, esta do concelho da Povoa de Varzim, pelo nascente com a de Gueral e a de Pedra Furada; pelo norte com a de Vilar de Figos e pelo poente com a de Rates.

É banhada pelo regato que nasce na fonte de Badalhão, afluente do rio Codade, e é servida pela estrada municipal que parte da estrada também municipal nº 5 de Barcelos às Fontainhas em Santa Leocádia e vai até aos limites de Rates, com uma ramificação por Vilar de Figos para Paradela. 

Tem as seguintes fontes públicas : a de Barrancos, a de Areosa, a de Badalhão, a da Igreja e a do Ribeiro.

A sua população no século XVl era de 23 moradores ; no século XVll era de 47 vizinhos ; no século xvlll era de 45 fogos ; no século XlX era de 287 habitantes e pelo 7º censo da população de Portugal é de 303 habitantes, sendo 131 varões e 172 fêmeas, sabendo ler 55 homens e 14 mulheres.

Esta população está distribuida pelos seguintes lugares habitados : Vilar, Casal de Baixo, Casal de Cima, Boa Vista, Campos, Igreja, Três Campos, Aldeia, Eira Grande, Bouça Redonda, Merouços, Bajouco, Boucinha, Areosa, Seixosa, Amins e Ferrado.

Tem Caixa do Correio e não tem Escola Oficial. O edificio para esta está ainda em construção, para o que o governo deu o subsídio de dez mil escudos.

As suas casas mais importantes são a da Eira Grande a de Amins e a dos Figueiredos.

Tem duas lojas de mercearia mas a sua indústria é quase nula.

No monte desta freguesia há finíssimos granitosmuitos procurados para as boas edificações.

Fizeram-se por vezes aqui pesquisas de grafite que me dizem aparecer em abundância.

Dos homens mais ilustres, cujos nomes andam ligados a esta freguesia, apenas nos lembramos dos seguintes: Padre Manuel José Martins, vigário desta freguesia (1826), espírito ilustrado e investigador histórico, foi depois abade de Gondifelos (Famalicão), 1852, para onde levou o livro das visitas desta de Courel de 1765 a 1826.

Não sei se ainda se conserva no Arquivo daquela freguesia, mas, quer se conserve quer não, Deus perdoe ao ilustre vigário este pecado que chega a ser crime.

Manuel José Ribeiro de Araújo natural desta freguesia, Comendador da Imperial Ordem da Rosa do Brasi, para onde foi, adquiriu largos haveres, e onde faleceu.

Foi um dos grandes benfeitores da sua terra natal.

Padre José marques Lima, natural de São Pedro de Rates, foi vigário em Courel e depois Reitor em Chorente, onde faleceu há poucos anos.

Espírito ilustrado, foi um músico distimtíssimo.

O Capitão Gregorio Gomes, Manuel Gomesda Fonseca e José António de Miranda aparecem-nos em alguns documentos relativos a esta freguesia como homens dos mais respeitados do seu tempo.

Ao norte desta freguesia mas ainda dentro dos seus limites, existe uma pequena elevação de terreno chamado o Monte Castro.

Dizem que nele, apesar de não se ter feito escavações aparecem telhas e tijolos, indicio de antigas construções romanas.

Nos morros de vários montes desta parte do concelho é frequente encontrarem-se vestígios da fixação de povos romanos e ainda pre-romanos.